Equipe Técnica Portal Psic e 

Wanessa Paixão – CRP 04/40.144

 

A avaliação neuropsicológica sempre enfrentou um desafio metodológico importante: como avaliar funções cognitivas e executivas em condições que representem a realidade cotidiana do paciente. Durante décadas, grande parte dos instrumentos clínicos foi construída em ambientes altamente controlados, frequentemente utilizando tarefas de papel e lápis ou estímulos computacionais simplificados.

Embora esses métodos sejam cientificamente sólidos, validados e eficazes, eles apresentam um limite conhecido na literatura: a baixa validade ecológica, isto é, a dificuldade de generalizar o desempenho observado no teste para o funcionamento real do indivíduo em situações da vida diária.

Com o avanço da neuropsicologia aplicada e das tecnologias digitais, especialmente da realidade virtual, novas ferramentas vêm sendo desenvolvidas para aproximar o contexto avaliativo do mundo real. Entre essas tecnologias, destaca-se o sistema de avaliação neuropsicológica Nesplora, que utiliza ambientes virtuais imersivos para investigar processos cognitivos de forma dinâmica e contextualizada.

 

O desafio da validade ecológica em contextos clínicos

Validade ecológica refere-se ao grau em que um teste consegue representar demandas cognitivas presentes na vida cotidiana. Em contextos clínicos como:

  • Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)
  • dificuldades de atenção sustentada
  • impulsividade
  • alterações de funções executivas

muitas queixas relatadas pelos pacientes ocorrem em ambientes ricos em estímulos e distrações, como:

  • salas de aula movimentadas
  • ambientes de trabalho com múltiplas tarefas
  • supermercados ou espaços públicos com estímulos simultâneos

Entretanto, os testes tradicionais frequentemente avaliam essas funções em condições artificialmente simplificadas, nas quais o indivíduo executa tarefas isoladas sem a presença de distratores reais. Essa discrepância pode gerar dificuldades diagnósticas importantes, especialmente em quadros nos quais os déficits cognitivos e executivos aparecem apenas em contextos complexos.

 

Como a realidade virtual transforma a avaliação cognitiva

A realidade virtual (RV) permite criar ambientes tridimensionais imersivos, nos quais o paciente interage com estímulos visuais e auditivos de forma semelhante ao que ocorre em situações do cotidiano. No sistema de avaliação Nesplora Aquarium, por exemplo, o indivíduo realiza tarefas cognitivas utilizando:

  • óculos de realidade virtual com sensores de movimento
  • fones de ouvido para estímulos auditivos
  • um controle manual para responder às tarefas

Nesse ambiente virtual, o participante é colocado no centro de uma sala de exposição semelhante a um aquário, onde diferentes estímulos são apresentados e exigem respostas específicas. A visualização do ambiente é continuamente atualizada conforme os movimentos da cabeça, aumentando a sensação de presença e imersão. Esse tipo de estrutura permite avaliar o comportamento cognitivo em condições mais próximas da experiência real, com estímulos concorrentes e mudanças dinâmicas na tarefa.

 

Dinamismo na investigação da atenção (CPT)

O modelo de avaliação utilizado no Nesplora baseia-se em tarefas de Desempenho Contínuo (Continuous Performance Test – CPT), amplamente utilizadas na investigação da atenção. No ambiente virtual são realizadas diferentes tarefas que exigem que o participante responda ou iniba respostas diante de estímulos auditivos e visuais apresentados simultaneamente.

Essas tarefas incluem:

  • paradigmas de execução dual, que exigem processamento simultâneo de estímulos
  • tarefas com interferência, nas quais as regras mudam ao longo do teste
  • situações com distratores ambientais, simulando interrupções típicas do cotidiano

Esse desenho experimental permite investigar não apenas a atenção sustentada, mas também componentes essenciais das funções executivas.

 

Processos cognitivos analisados em ambientes imersivos 

As avaliações baseadas em realidade virtual permitem analisar uma ampla gama de processos cognitivos relevantes para a prática clínica, incluindo:

  • atenção seletiva e sustentada
  • atenção visual e auditiva
  • memória de trabalho
  • controle inibitório
  • impulsividade
  • perseveração
  • velocidade de processamento
  • flexibilidade cognitiva (switching)
  • atividade motora associada à tarefa

Essas variáveis são particularmente importantes para a investigação de quadros como TDAH, transtornos de aprendizagem, alterações executivas e dificuldades atencionais em diferentes contextos clínicos.

 

Relatórios clínicos: do desempenho à variabilidade atencional

Outro avanço importante dessas tecnologias está na estrutura dos relatórios clínicos, que integram múltiplos indicadores cognitivos em um formato visual e interpretativo.

Os relatórios do Nesplora apresentam:

  • índices gerais de desempenho cognitivo, como atenção, vigilância e memória de trabalho;
  • medidas de tempo de reação, que refletem a velocidade de processamento;
  • indicadores de consistência da resposta, associados à atenção sustentada;
  • erros por omissão, que podem indicar diminuição do nível de alerta e
  • erros por comissão, associados à impulsividade e falhas de controle inibitório.

Além disso, os relatórios apresentam gráficos comparativos com pontuações padronizadas, permitindo visualizar rapidamente se o desempenho do paciente está dentro da média, acima ou abaixo do esperado para sua faixa normativa. Outro aspecto inovador é a análise de variabilidade do tempo de reação, que pode indicar flutuações na vigilância atencional ao longo da tarefa. Essa combinação de indicadores permite uma análise mais completa do perfil cognitivo do indivíduo.

 

O impacto de distratores no comportamento do paciente 

Um dos diferenciais da avaliação em realidade virtual é a possibilidade de observar como o paciente reage a distrações ambientais.

Durante o teste, diferentes estímulos distratores podem surgir no ambiente virtual, como:

  • sons de telefone
  • ruídos ambientais
  • estímulos visuais inesperados

Os relatórios registram inclusive a atividade motora do participante durante a tarefa, permitindo observar padrões comportamentais associados à inquietação ou hiperatividade. Esse tipo de análise é especialmente relevante em avaliações de TDAH, nas quais o comportamento diante de estímulos concorrentes é um marcador clínico importante.

 

Rigor científico e propriedades psicométricas do Nesplora 

O uso de tecnologias imersivas em avaliação psychological exige rigor científico equivalente ou superior ao dos instrumentos tradicionais. Estudos com o Nesplora Aquarium e Kids, por exemplo, indicam propriedades psicométricas robustas, incluindo:

  • coeficientes de confiabilidade superiores a 0,9 nas tarefas avaliadas
  • evidências de validade convergente com instrumentos clássicos de atenção, como D2, CPT de Conners e T.O.V.A.
  • capacidade discriminativa para identificar sintomas atuais e passados de TDAH

Além disso, estudos normativos incluíram 1.469 participantes entre 16 e 90 anos, contribuindo para a construção de parâmetros comparativos sólidos.

Esses dados reforçam a viabilidade clínica do uso de ambientes virtuais na avaliação neuropsicológica.

 

Tecnologia e precisão diagnóstica no cotidiano do consultório

Durante muito tempo, tecnologias como a realidade virtual foram vistas como recursos futuristas ou experimentais na psicologia clínica. Hoje, porém, a discussão se desloca para outro ponto: a necessidade de instrumentos capazes de reproduzir a complexidade do comportamento humano em contextos reais e instrumentos que sejam menos desgastantes para os pacientes e ajudem a engaja-los nas avaliações e atividades. 

Quando um paciente relata que não consegue manter atenção in ambientes cheios de estímulos, avaliar seu desempenho apenas em tarefas altamente controladas pode ser insuficiente. Ambientes imersivos permitem observar algo essencial para o diagnóstico neuropsicológico: como o cérebro funciona quando o mundo real entra em cena.

Nesse sentido, a integração entre neuropsicologia e realidade virtual não representa apenas um avanço tecnológico, mas um passo importante para tornar a avaliação cognitiva mais precisa, contextualizada e clinicamente significativa.

 

REFERÊNCIAS

ARECES, Débora et al. Attentional profile of adolescents with ADHD in virtual-reality dual execution tasks: a pilot study. Applied Neuropsychology: Child, v. 9, n. 4, p. 1–11, 2020. DOI: https://doi.org/10.1080/21622965.2020.1760103.

CAMACHO-CONDE, José Antonio; CLIMENT, Gema. New virtual reality tool (Nesplora Aquarium) for assessing attention and working memory in adults: a normative study. Applied Neuropsychology: Adult, 2019. DOI: https://doi.org/10.1080/23279095.2019.1646745.

CLIMENT, Gema et al. New virtual reality tool (Nesplora Aquarium) for assessing attention and working memory in adults: normative study. Applied Neuropsychology: Adult, v. 27, n. 4, p. 1–12, 2019. DOI: https://doi.org/10.1080/23279095.2019.1646745.

VOINESCU, Alexandra et al. The effectiveness of a virtual reality attention task to predict depression and anxiety in comparison with current clinical measures. Virtual Reality, v. 25, p. 1–15, 2021. DOI: https://doi.org/10.1007/s10055-021-00520-7.

WIGUNA, Tjhin et al. A four-step method for the development of an ADHD-VR digital game diagnostic tool prototype for children using a deep learning model. Frontiers in Psychiatry, v. 11, 2020. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2020.00829.

NESPLORA. Nesplora Attention Adults Aquarium: propriedades psicométricas. Espanha: Nesplora Technology & Behavior, [s.d.]. Disponível em: https://nesplora.com/nesplora-aquarium-estudios-y-referencias/. Acesso em: 17 abr. 2026.

 

NESPLORA. Relatório interpretativo: Nesplora Attention Adults Aquarium. Espanha: Nesplora Technology & Behavior, [s.d.]. Material técnico de relatório clínico do instrumento.