18 de fevereiro – Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo

Durante muito tempo, o alcoolismo foi associado à imagem do afastamento extremo: faltas recorrentes, perda do emprego, rupturas visíveis. A realidade contemporânea é mais silenciosa, e justamente por isso, mais perigosa. No ambiente corporativo, cresce a figura do alcoólatra funcional: aquele que cumpre horários, entrega resultados mínimos, participa de reuniões, mas paga um custo alto na saúde física, emocional e relacional.

Ignorar esse cenário não é neutralidade. É risco ocupacional.

O que é o “alcoólatra funcional”

O alcoólatra funcional mantém desempenho suficiente para seguir trabalhando, mas apresenta dependência do álcool fora (e às vezes dentro) do expediente. O consumo não é episódico nem social: ele cumpre uma função psicológica: aliviar ansiedade, estresse crônico, pressão por performance ou sofrimento emocional não elaborado.

O problema não está apenas na quantidade, mas na função que o álcool ocupa na vida do trabalhador. A longo prazo, o impacto aparece: queda cognitiva, irritabilidade, lapsos de memória, adoecimento emocional e maior exposição a acidentes.

Sinais de alerta para o alcoolismo no trabalho

Nem sempre o álcool aparece em si. O que aparece são os efeitos. Alguns sinais merecem atenção estratégica:

  • Oscilações frequentes de humor, irritabilidade ou apatia;
  • Queda gradual de produtividade ou aumento de retrabalho;
  • Absenteísmo pontual, atrasos recorrentes ou “sumidas” estratégicas;
  • Dificuldades de concentração e tomada de decisão;
  • Conflitos interpessoais antes inexistentes e
  • Aumento de acidentes ou comportamentos de risco.

Isoladamente, esses sinais não fecham diagnóstico. Juntos e persistentes, acendem o radar.

Punir ou tratar alcoolismo no trabalho? O papel do RH e da Psicologia

Aqui mora o ponto crítico. Empresas que tratam o alcoolismo apenas como falha moral ou indisciplina tendem a empurrar o problema para a clandestinidade. O resultado costuma ser mais afastamentos, mais acidentes e mais custos ocultos.

A Psicologia Organizacional e o RH estratégico têm outro papel: prevenção, acolhimento e encaminhamento responsável.

Isso não significa permissividade. Significa maturidade institucional. Programas eficazes costumam incluir:

  • Políticas claras sobre uso de álcool e outras substâncias, com foco preventivo;
  • Capacitação de lideranças para reconhecer sinais e agir sem estigmatizar;
  • Avaliação psicossocial, especialmente em funções críticas (altura, máquinas, direção, espaços confinados);
  • Programas de Apoio ao Empregado (PAE/EAP) com acesso a acompanhamento psicológico e
  • Encaminhamento terapêutico quando identificado risco à saúde ou à segurança.

 

Punir pode até resolver o sintoma imediato. Tratar reduz o risco sistêmico.

O alcoolismo como tema de saúde e segurança do trabalho

No contexto atual da legislação trabalhista e das Normas Regulamentadoras, especialmente com a ampliação do olhar sobre riscos psicossociais, o alcoolismo deixa de ser um “assunto pessoal” e passa a ser um fator de risco ocupacional.

Empresas que investem em prevenção não estão apenas sendo humanas. Estão sendo inteligentes do ponto de vista jurídico, financeiro e reputacional.

18 de fevereiro: mais que uma data, um convite à responsabilidade

O Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo não é sobre apontar dedos. É sobre ampliar consciência. Sobre entender que saúde mental no trabalho não se constrói apenas com discursos, mas com políticas, processos e decisões éticas. Falar de alcoolismo no trabalho é desconfortável? Sim.
Necessário? Muito mais.

Na Portal Psic, acreditamos que avaliar, prevenir e cuidar é sempre mais eficaz do que remediar. Empresas saudáveis começam por olhares responsáveis sobre pessoas reais, com limites, pressões e histórias que não cabem em planilhas, mas impactam diretamente os resultados.

Porque produtividade sustentável não combina com silêncio. Combina com cuidado estruturado, ciência e responsabilidade.

Se a sua empresa, equipe de RH ou prática clínica já entendeu que dependência química é tema de saúde, prevenção e responsabilidade institucional, o próximo passo é aprofundar o repertório técnico.

Uma leitura altamente recomendada é o livro Álcool e Trabalho - Revisitando conceitos à luz de novas descobertas.

Apesar de haver registros históricos sobre o uso de álcool em contextos de trabalho, a pesquisa científica sobre suas possíveis relações com as atividades laborais ainda é incipiente e apresenta muitas lacunas. Esta obra visa avançar o conhecimento sobre o tema ao apresentar os resultados de oito anos de pesquisa conduzida pelo Núcleo de Estudos sobre Saúde Mental e Trabalho do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O ponto inicial da pesquisa foi um levantamento epidemiológico em um centro de atendimento a dependentes químicos, que revelou uma significativa prevalência de alcoolismo em determinadas categorias profissionais. Posteriormente, foram realizados estudos qualitativos com esses grupos profissionais para entender as razões por trás dos altos índices de alcoolismo detectados. Os resultados obtidos representaram um avanço significativo em relação aos estudos anteriores sobre o tema, superando as concepções tradicionais sobre dependência e promovendo um diálogo enriquecedor com outras disciplinas, especialmente nas Ciências Sociais. As perspectivas abertas por esses resultados são promissoras, oferecendo novos elementos para a reflexão sobre o diagnóstico e a prevenção do uso de álcool nos ambientes de trabalho.

 

Autor: Maria Elizabeth Antunes Lima, Rosãngela Maria de Almeida Camarano Leal